segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Montanha dos Gansos Selvagens




Havia, certa vez, um bando de gansos selvagens...
Eles voam muito altos. Viajam para lugares desconhecidos, distantes, ainda que isso seja perigoso...
Os gansos selvagens são mais magros: devem ser livres para poder voar.
E os seus olhos são diferentes, É que eles viram estrelas e pores-do-sol que os gansos domésticos não podem ver.
No centro da planície havia um lago.
Era ali que os gansos brincavam. Era ali que eles ficavam mais bonitos. Todo mundo sabe que os gansos são desajeitados, bamboleantes e engraçados na terra firme. Mas na água ficam serenos e calmos, como os navios...
Mas nem tudo era bom. Nada é perfeito.
As vezes o calor era demais. Ou o frio demais. E havia os caçadores, com suas espingardas...
Foi ali que nasceu um gansinho, bem pequeno, menor que um ovo.
Aprendeu a andar, aprendeu a nadar, experimentou o calor e teve que se abrigar do frio, tremeu de medo ao ouvir o barulho das armas dos caçadores...
Mas havia algo de muito especial...
Ele gostava das horas que todos os gansos se reuniam, quando o sol ia se pondo...
O sol se refletia dentro do lago. Parecia uma fogueira...
E o gansinho, cujo nome era Cheiro-de-Jasmim não entendia por que é que a água do lago não apagava o fogo do sol...
Esta era a hora que os velhos se punham a contar estórias. E falavam especialmente das montanhas mágicas...
Montanhas Mágicas. Elas podem ser vistas lá de longe, justo onde o sol estava se pondo.
Eram altas, misteriosas, encantadas.
A primavera durava sempre, não havia calor nem frio demais. E havia um fruto encantado, vermelho como o sol e que, se comido, fazia com que os gansos fossem jovens para sempre.
E sobretudo não havia caçadores...
_ Se as montanhas mágicas são tão maravilhosas, por que é que não nos mudamos para lá? - perguntou Cheiro de Jasmim.
_É que elas são altas demais - respondeu o velho ganso.
Para se chegar até lá, o corpo tem que ficar leve, muito leve... é preciso ser como uma libélula...um papagaio flutuando ao vento... Somos pesados demais... sabem por quê?
É que temos medo de tanta coisa. É o medo que nos faz pesados. E porque somos pesados ficamos com as caras tristes...cansadas...
Quem tem cara triste não pode voar...
Mas quando o tempo vai passando, os gansos vão ficando leves, até que chega o dia do grande vôo...
Cheiro-de-Jasmim olhou para o seu pai. Olhava este, para as montanhas encantadas.
Já não havia mais o brilho do sol. Mas o brilho da lua os tornava mais belas ainda.
E ele notou que seu pai, outrora pesado e sério, estava ficando mais leve.
Pela primeira vez ele sentiu tristeza de pensar que, um dia, eles se separariam.
Mas, por que partir, se a vida é tão boa?
_É necessário partir para continuar a viver, respondeu o velho ganso.
_Quando se fica mais leve, fica difícil viver aqui. A comida muito pesada faz mal. O frio dói nos pulmões. O ar, muito pesado, faz mal. As coisas mais leves são mais belas e sobem mais.
Mas sâo mais frágeis. Precisam de um ar diferente. E por isso é necessário partir para as montanhas encantadas...
Um dia o coração diz que é preciso partir para continuar a viver.
Quando isso acontece, chegou a hora da despedida...
O tempo passou...
Cheiro-de-Jasmim cresceu. Vieram seus filhos.
Ele ficou pesado como todos os outros. Enquanto isso seu pai ficava mais leve...
Até que chegou o dia do adeus. Nada mais segurava aquele ganso, mais selvagem e mais leve do que nunca.
Estava pronto para a viagem misteriosa. Claro que havia algo que o prendia. o amor pelo lugar, o amor por todos...E especialmente o amor por Cheiro-de-Jasmim.
Como ele o amava!...
Cheiro-de-Jasmim chegou-se ao pai, abraçou-o e perguntou:
_Quando você partir, vai sentir saudades?
O velho ganso se calou.
Cheiro-de-Jasmim continuou:
_Não chore...eu vou abraçar você...
E assim, ficaram juntos, muito tempo, pensando que a vida era tão boa, tão bonita...
O vento veio de mansinho, sem nenhum barulho.
O velho ganso nem precisou bater as asas. Ele estava leve, leve...e ele partiu para a montanha encantada.
Todos se reuniram, como sempre faziam quando isso acontecia... Todos falavam da saudade e choravam...
O mundo não já era o mesmo...
Mas Cheiro-de-Jasmim podia jurar haver ouvido os risos de seu pai, tais como ouvira muitos anos atrás,
quando era jovem e belo.

Rubem Alves

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