terça-feira, 6 de março de 2012

Violência afetiva




Se definirmos "violência" como qualquer força empregada contra a vontade, liberdade ou resistência de pessoa ou coisa, temos também que considerar que há inúmeras formas de violência, e várias áreas onde ela pode se manifestar. Quanto à forma como ela acontece alguns exemplos nos incorrem como: violência física, afetiva, psicológica, sexual, entre outras tantas.
A que interessa-me aqui descrever e discorrer é a afetiva, visto ser o tipo de violência convencionalmente aceita e até esperada nos dias de hoje. Ela se manifesta sob a forma de precocidade e rapidez com que as aproximacões afetivas ocorrem, tendo em vista a naturalidade desse procedimento, e ainda por ser tomada como sinal de modernidade.
Num passado não muito distante as aproximações amorosas seguiam um curso temporal pré-estabelecido que compreendia o namoro - o noivado e o casamento, havendo um dado tempo de desfrute dessas fases, até que os laços estivessem maduros e aptos para iniciar uma nova fase.
O advento das transformações sociais foi gradativamente abolindo tais fases, antecipando-as, e instalando a precocidade nas relações. A temporalidade foi perdendo a ênfase como propiciadora de amadurecimento e crescimento dos vínculos afetivos e emocionais. Essa precocidade alavancou outras precocidades;  visto que o sexo passou a ser desfrutado sem o devido preparo ou conhecimento dos envolvidos (precocidade sexual), tornando comum o "morar junto" sem  o levantamento das compatibilidades, ou esclarecimento das responsabilidades mútuas (precocidade espacial).
Obviamente passou a ser visivel o insucesso desses procedimentos como:  nascimento de filhos indesejados, aumento da violência entre casais, duração cada vez menor das relações e parcerias, além do aumento da desesperança e descrença na instituição do casamento, assim como no próprio vínculo afetivo e na possibilidade de amar.
Temos que considerar que todo ser humano, além de um "eu-afetivo", dispõe de um "eu-pele".  Pele essa que constitui uma fronteira que delimita o mundo interno do mundo externo, e constitui nosso próprio invólucro. Sabe-se que a criança espera dos seus entes queridos o afago corporal, o colo, os cuidados manuais da mãe, como uma forma de sentir-se protegida dentro dessa pele, recebendo o calor emocional necessário à sua formação emocional.  Falhas e carências nesse sentido acarretariam  a insegurança da criança, além de outros déficits afetivos de várias ordens e graus. Em sentido inverso, a criança teme ser entregue às mãos estranhas, ou mesmo a proximidade com estranhos a assusta, na medida que afronta o seu "eu-pele". Embora eu esteja pontuando tais ocorrências como mais visíveis e acentuadas nos infantes,  elas também se fazem verdadeiras nos adultos.  Nestes, quando da aproximaçõo repentina de estranhos, ou do
avanço precipitado sobre nossa pele, nos defendemos colocando as mãos à frente, como a escudar-se do outro, ou empurrando o invasor, ou mesmo afastando-nos para trás do corpo do invasor. O mesmo mal-estar é sentido quando nas lotações de ônibus, metrôs, aglomeramentos públicos e outras situações que nos ameace corporalmente, invadindo nossa pele. 
Assim sendo, toda aproximação não esperada e não preparada é sentida como invasiva, e nos acarreta mal-estar, angústia e sensações de estranhamento.
Penso ser momento de repensar e reavaliar nossos encontros e aproximações vinculares,  respeitando e fazendo se respeitar nossos tempos afetivos, corpórios e sexuais.


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