quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ruminações Mentais


A memória é um processo mental fantástico e extremamente misterioso. Ela tem uma capacidade incrível, muito maior do que jamais imaginamos.
Incrivelmente, todas as nossas vivências são armazenadas em placas sobrepostas umas sobre às outras, lembrando pilhas de pratos em nossos armários de cozinha.
A sobrecarga de informações prejudica o processo de " lembrar", uma vez que as informações competem por espaço na nossa cabeça.  
Assim, o congestionamento mental atrapalha que lembremos do que é mais importante, e esqueçamos aquilo que menos importa. Isso significa que não devemos tentar se lembrar de cada vez mais coisas: e sim aprender a esquecer.
Sim, pois se tudo ficasse na cabeça para sempre, esta viraria um depósito de lixo, e nos tornaria incapazes de "focar" em qualquer coisa em especial. 
Em resumo, devemos aprender a discernir o que deve ser esquecido e aquilo que deve ser lembrado; afinal, para que saber o que você comeu na ceia de natal do ano passado?
Mas, como explicar que no meio de trilhares de informações arquivadas, algumas delas se sobreponham às demais em grau de importância e ênfase? Sabemos que o cérebro usa um tipo de memória para cada tipo de informação que deseja armazenar, ou seja, ele tem um arquivo de coisas que ele considera importantes, outro para as menos importantes, outro para as mais recentes, outro para as mais antigas; ou seja, ele dispõe de um método próprio de arquivar. 
E é justamente isso que torna tal processo ainda mais misterioso, se nos indagarmos quais crítérios a memória utiliza para separar e discriminar as informações mais importantes das menos importantes.
Sabemos também que certas informações são apagadas da mente, ou ela busca esquecer. Não por serem fúteis ou reles, mas por serem justamente tão importantes e marcantes que, se fossem lembradas,  remeteria o indivíduo a um sofrer intenso por recordar uma vivência triste, ou por ter sido algo tão gratificante e feliz, que dispertaria na pessoa um sofrer excessivo de falta e saudades.
Assim sendo, para poupar ao ser humano um tal sofrer, a mente ergue como defesa o esquecimento e o apagamento desses fatos, pondo em andamento um processo que a psicanálise denominou de repressão.
Na verdade, trata-se de um processo pouco eficiente, visto que atinge êxito somente a curto prazo. Na ânsia de fugir ao sofrimento, o indivíduo supõe que tudo possa ser resolvido, se a parte mais amarga e triste do "vivido" puder ser descartada da mente, tal como fatiássemos  pedaços de um bolo de aniversário, e jogássemos ao lixo.
Mal sabe que tais fatias retiradas e desprezadas,  não permanecerão indefesas e quietas por muito tempo. Pelo contrário. Elas se fortalecerão ainda mais no silêncio e no escuro dos porões da mente, e retornarão inesperadamente para reclamar seu reconhecimento, e nos assombrar sob as mais variadas formas de sintomas como: angústia, depressão, pânico, etc.
A única saída coerente é, portanto, o aprender a lidar satisfatoriamente com os conteúdos desprazerosos da mente e da vida, aceitando-os na nossa bagagem, e desenvolvendo soluções possíveis e viáveis de contenção e acomodação.
Muitas vezes  fui questionada sobre o jeito de tolerar rupturas,  que diziam ser demasiado sereno face ao problema.
Costumo dizer que essa serenidade advém duma postura de vida, cujos procedimentos e atitudes acabam por facilitar o "passar" por situações difíceis.
Assim sendo, a tranquilidade frente às frustações emocionais é tanto maior quanto menor for a culpa e o remorso envolvidos no vínculo.
Isso significa que há uma relação inversamente proporcional entre essas duas correntes de sentimentos. Ou seja, se eu fiz um investimento amoroso sério e fidedigno, ...se eu ofereci o melhor de mim e, ...se eu tive as melhores intenções possíveis em relação ao outro, não haverá motivos para o surgimento de culpas e dores de consciência, e assim a paz pode ser facilmente conservada ou recuperada.
Restará apenas aceitar o " fato frustrante" como parte inerente à própria conjuntura do viver, que foge inteiramente a qualquer controle humano.  Isso nos conduz a uma outra forma de enfrentar mais facilmente os conflitos e perdas emocionais: o desenvolvimento da maturidade mental e emocional.
Penso que se estamos cá no mundo, e que se ele assim se revela com benesses e infelicidades,  faz-se necessário que nos tornemos maduros e aptos a fim de solucionar e equacionar o que  se nos apresenta de mais complicado e intrincado nessa trajetória.
E é com esses ingredientes na bagagem que temos que fazer o enfrentamento das crises existenciais, sem mascarar e afastar da mente as lembranças, que na verdade constituem o patrimônio e  a garantia daquilo que vivemos. 
Não penso ser uma política eficiente o "refrear" vínculos ou o "deixar" de amar  como  medidas de evitação do sofrer. Na verdade, temos que ter o mesmo preparo tanto para o "amar" quanto para o "perder", pois ambos constituem possibilidades decorrentes da vida.
Ademais, quem entra nesta arena deve estar preparado para o inédito e para o imprevisível,  justamente  o que há de mais divino e encantador naquilo que podemos chamar de "viver".
Todas essas ruminações mentais para finalizar com uma pergunta, que num outro dia,  foi-me feita:
_ Lembras de mim?
Respondo:
_Há pessoas que, com o passar do tempo, eu lembro mais.



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