quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Medo de amar



Vejo pessoas que ao se apaixonarem, sentem-se imensamente aterrorizadas e inseguras, traçando movimentos ondulares de aproximação – medo – distanciamento em relação ao objeto amado, num vaivém interminável.
São incapazes de manterem-se tranquilas frente à relação, e acabam sendo perseguidas por ideias de infidelidade, abandono, desinteresse e esgotamento do amor do outro.
Para explicar a razão de tal desassossego, teremos que considerar que aquilo que o indivíduo espera receber do mundo e das pessoas, tem a ver com o seu próprio mundo interno.
Assim sendo, por que algumas pessoas são seguras dos vínculos que estabelecem, enquanto outras são tão descrentes da pureza e da lealdade das ligações afetivas?
A resposta está no próprio funcionamento mental desses portadores da síndrome do “medo de amar”, da qual vou ressaltar algumas características proeminentes:

                                                              1 - Temor da infidelidade
Para se confiar num outro, há um pressuposto simples e direto: “Tem que  primeiro confiar em si mesmo”.  Você confia em si próprio?
 
Se a resposta é não; consequentemente você não confiará no outro. Se uma pessoa não se sente digna de confiança, como ela espera que o outro seja?  Assim, quem trai e rouba é justamente o que espera ser roubado e traído.
Isso acontece por concebermos o mundo externo e as pessoas como um prolongamento de nós mesmos, como se fossem feitos à nossa imagem e do mesmíssimo material, e é daí que partem os respectivos medos.
Deste modo, conseguimos avaliar o mundo interno de uma pessoa se atendo justamente às suas avaliações e temores em relação ao mundo e às pessoas, à medida que veem explicar os seus próprios conteúdos.
À medida que a pessoa vai tornando-se mais confiável e ciente de seus aspectos benignos  e honestos, proporcionalmente há um aumento da sua tranquilidade e confiança nas relações amorosas, assim como o decréscimo do medo da infidelidade.
                                                                      2 - Insegurança
No terreno do amor as incertezas são muitas, e o ser humano diante das não-certezas sente muito medo.  No entanto, há pessoas onde esse medo é exagerado, fazendo do "amar" algo especialmente assustador. Manifesta as seguintes características:
- medo que o outro não vá amá-lo o suficiente
- medo de ser abandonado
- medo de não conseguir levar a situação adiante, culminando no fracasso da relação ou num final infeliz.

Para alguns, esse medo atinge níveis tão elevados, que eles chegam a romper precocemente com a relação, ou destruí-la, uma vez que não conseguem tolerar o sofrimento e o desespero advindos dessa ligação.
Podemos considerar que o “medo de amar” seria o equivalente ao “medo de perder”, ou mesmo “o medo da rejeição”; e o sujeito acaba por antecipar o fim do amor, por não suportar a ideia de uma rejeição futura, que ele tem certeza que irá ocorrer. Então, ele a antecipa, rejeitando ele mesmo a pessoa por quem acabaria sendo rejeitado (fantasia de rejeição que ele conserva ativa na mente).
Àqueles que não chegam a por um fim à relação, e permitem-lhe a continuidade, geralmente estabelecem padrões relacionais confusos e marcados pela insegurança.
Já que o amor remete à incerteza, e que não temos nenhuma garantia de sua durabilidade, nem tampouco do amor e da permanência do outro, o medo acaba sendo facilmente ativado.
No entanto, falar em “medo de amar” pode soar vago quando se pergunta o que realmente  se teme “ao amar”.  Qual o risco escondido no amor? O que podemos perder quando se ama?
Dentre uma série de motivos, destacarei  os dois mais comuns e mais temidos, a fim de apontar os riscos envolvidos àqueles que amam:
a) Medo da dependência ao outro
A maioria das pessoas têm horror à ideia de estarem nas mãos de um outro, pela incerteza desse alguém ser hábil ou não em respeitar, cuidar e retribuir o amor que lhe é doado.
Na verdade, nenhuma relação (de amizade, profissional, amorosa, etc.) nos trará tal certeza, uma vez que no plano emocional nunca saberemos ao certo as respostas e as reações do outro. Então se pergunta:
Qual a saída para tal enigma?
Desistir dos vínculos?
Insistir neles, mantendo o cuidado de não apaixonar-se?
Blindar-se contra o amor?
Um primeiro ponto que surge é o fato de não parecer justo e acertado dar andamento a uma nova relação, quando já se sabe de antemão que não haverá progressos e correspondência de uma das partes. Soa como um desperdício e despropósito.
Ademais, parece equivocado conferir ao novo pretendente o status de “não confiável”, vindo ele a pagar pelos males e erros das nossas relações anteriores mal sucedidas e corruptas.
Penso que a saída mais viável não estaria na precaução ou no evitamento dos vínculos, mas sim no nosso próprio fortalecimento pessoal.
O problema desenha-se da seguinte forma:
Se o outro é confiável ou não nunca o saberemos. Entretanto,  o que deve se saber com certeza é a magnitude de nossa força e estrutura emocional.
Sim.
Temos que ter absoluta convicção de que conseguimos suportar as frustrações e as demandas da vida amorosa.
 Que temos alicerces e apoios mentais disponíveis e suficientes para transitar por entre as relações, entrando e saindo delas inteiros e sãos.
 Acreditar que frente às desilusões e às rupturas afetivas saberemos manter-nos firmes e suportar o suposto sofrer.
Finalizo lembrando que “evitar o amor” para se “evitar a dor”, pode ser um expediente que provisoriamente nos poupa realmente de um sofrer.  No entanto, devemos também estar cônscios de que estaremos abrindo mão de ganhos louváveis, visto que o amor, além de poder gerar grandes dores, é ao mesmo tempo, o responsável pelos maiores e mais deliciosos prazeres que a vida oferece.
b) O medo de perder o controle
Refere-se ao medo de dar continuidade e sequência às situações emocionais e aos vínculos:
Será que dou conta das exigências dessa relação?
Serei capaz de manter meu namorado me amando?
Será que consigo fazer meu casamento durar?
Tais respostas convergem em direção à autoestima  e ao valor da pessoa.
Quando alguém se questiona sobre esses aspectos, estaria na verdade a duvidar de suas potencialidades, e a descrer dos seus atributos e recursos em manter alguém ao seu lado, e mantê-lo apaixonado.
Provavelmente tal pessoa não se considera “interessante e boa”, ao ponto de não conseguir crer que pode ser amada de fato. Teme perder seu posto e espaço para alguém melhor, e imagina a possibilidade de ser abandonada, já que não se sente importante e marcante para o parceiro.
Assim, o “amar” transforma-se num enorme fardo a fustigar o sono das pessoas, colocando em andamento um “sofrimento e medo” imensos, não restando outra saída de alívio e bem-estar, senão a interrupção do vínculo, incorrendo àss afamadas “troca-trocas” de paixões.
São exemplos de casos onde “o bom” do amar não foi suficientemente forte para aliviar e declinar a angústia das incertezas, e a relação foi destroçada.
Embora tais expedientes tenham por finalidade proteger a pessoa de um sofrer agudo, tal procedimento não se mostra tão eficiente;  uma vez que, a cada relação fracassada e  abandonada pelo sujeito, ela passará a ser assumida pela mente como “maldade interna”, e acaba por desencadear e aumentar a melancolia, a culpa e as sensações de fraqueza e insegurança.


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