sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Felicidade




O tema "Felicidade" é um dos assuntos de maior polêmica, estudo e preocupação pela ciência e pelos sujeitos em geral.
Muito sobre ela já foi dito e estudado, e todo mundo tem uma receitinha para tirar do bolso quando o assunto é "Como ser feliz?", embora tal receita varie com o passar do Tempo e de acordo com as transformações sofridas pela sociedade.
Não tenho o intuito de oferecer uma outra receita à lista das milhares que já há, porém, minha intenção é simplesmente tentar desmistificar um pouco o modo como a noção de felicidade é concebida, entendida, esperada e pensada por nós humanos.

Temos que partir do fato de que o ser humano tem um "aparelho mental" totalmente diferenciado dos animais.
Somos providos de inteligência e percepções avançadas, e além do mais dispomos do atributo de Memória para guardar o registro de tudo o que experienciamos no mundo.

E é justamente neste ponto que começa a complexidade em relação à felicidade.
Vivemos um período da nossa vida
 dentro da mãe (período em que fomos gestados), e um outro período logo a seguir, que corresponde à primeira infância, onde vivenciamos uma "vida fusional" com esta mãe.
Corresponde a um período de "quase colagem" ao corpo dela, e vem acompanhado de sensações de segurança, proteção e prazer inigualáveis, com a fantasia de que aquele ser (mãe) estaria ali existindo só para a criança, em disponibilidade absoluta para a nossa pessoa e para o nosso total usofruto, e assim, o seu amor e cuidado por nós consistiriam na própria razão da vida dela.


Esta primeiríssima experiência de vida da criança abre uma inscrição mental, um registro na memória, onde todas as vivências consecutivas do sujeito se inclinarão à busca e à tentativa de um "re-encontro" com esta "experiência sagrada e única", uma vez vivida e sonhada eternamente.
Assim é que, tal fantasia nunca mais se apagará ou desaparecerá da mente humana, e será sempre "este" o nosso sonho de consumo, "a tentativa de resgate do paraíso perdido", criando assim uma "ficção de felicidade" que vai permanecer sempre pronta e disponível para colocar-se em andamento, especialmente a cada experiência amorosa surgida na vida do indivíduo.

Seria esperado que o "sujeito maduro" conseguisse lidar e domar tais ficções, desistindo assim destes padrões infantis e primevos que configuram os relacionamentos amorosos e as fantasias impossíveis de felicidade.
No entanto, não é o que vem ocorrendo na sociedade atual.
A mim faz parecer que a modernidade tem despertado ainda mais este tal "mito de amor e felicidade 24 horas",
e que as expectativas do sujeito em relação a sua satisfação e alegria na vida estão totalmente fora dos preceitos
de realidade e do viável.

Assim sendo, vejo as pessoas sonhando acordadas, tentando encontrar "alguém" que as preencha e sacie completamente, que lhes dê a plenitude e o prazer absoluto, além da "felicidade eterna" tão sonhada e alucinada.

Se o conceito de felicidade se pautasse nestes moldes, poderíamos assegurar que o sujeito só poderia ser feliz "enquanto goza", uma vez que nenhum outro momento humano, a não ser o orgasmo, corresponderia a um prazer deste tipo.
Visto a incapacidade de um "coito ininterrupto", resta-nos a busca pela felicidade possível, e nos conformar frente a impossibilidade de concretização desta fantasia de "felicidade etérea", renunciando finalmente ao desdobramento deste sonho fictício e alienante.
Tal renúncia significa abrir mão da crença de que existe "um outro" capaz de nos salvar de todos os sofrimentos, oferecendo-nos a alegria de viver e a felicidade plena; ou que tal possibilidade se faça possível no mundo externo, mediante a aquisição de empregos fantásticos, objetos sonhados ou padrões financeiros bem-aventurados.
Definitivamente tais crenças baseiam-se em puras ilusões, e como toda ilusão se desfaz mediante o encontro com a realidade, elas estarão predestinadas ao fracasso, frustração, decepção e infelicidade.

O amadurecimento psíquico nos leva a ter de aceitar as condições de nossa estrutura mental deficitária e incompleta, e de que somos seres que carregam uma "falta interna" que nunca poderá ser preenchida; e que, muito embora isto nos faça sofrer demasiado, é esta mesma "falta" que nos impulsionará a buscar saídas e realizações pessoais que poderão apaziguar este nosso "buraco interno".
Assim sendo, esta "ausência e vazio" que carregamos é justamente o que faz de nós "um ser" que busca, busca e busca incessantemente.
A realidade do mundo sempre frustará nossos desejos e a nossa felicidade, e procurar alternativas de escape e solução de tais frustrações é o que nos faz fortes, seguros e evolucionistas, além de que nos impele igualmente às realizações pessoais, cujo êxito nos devolve uma felicidade possível, e nos faz encontrar ainda um sentido para o nosso viver.


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