terça-feira, 25 de março de 2014

Ações macabras



"Alguém queixa-se de que tem por hábito colocar as "necessidades do outro" em primeríssimo lugar, relegando a segundo plano as suas próprias. Diz, inclusive, passar por cima de suas vontades para que os outros estejam contentes e felizes. Por outro lado, sente-se sozinho, e nota que os outros
não lhe retribuem, e ainda lhe pedem mais."

 Penso que tal afirmação pode conter alguma verdade, porém, não toda ela. Falta algo. Algum outro dado que possa vir explicar o "ganho secundário" obtido por tal comportamento repetitivo e circular.
Ninguém colocaria o dedo no interruptor novamente, depois de haver levado um choque elétrico.
Isso quer dizer que o ser humano costuma abandonar os comportamentos que lhes causam
unicamente, e tão somente, desprazer e dor.
Assim sendo, faz-se necessário verificar qual o "lucro indireto" que estará a manter
e a fazer conservar esse modo de agir tão característico neste sujeito.


No momento em que se lê o descritivo da queixa de tal pessoa, somos inclinados a pensar:
_"Coitado. Quanta gente mau e ingrata neste mundo!".

Começamos então a perceber que um dos possíveis ganhos desse "script comportamental" seria o de angariar a compaixão do outro, o que, em última instância, remeteria o sujeito em questão a uma
sensação de superioridade; uma vez que ser "vítima" da maldade e ingratidão alheias acabaria
 por separar e delimitar a localização exata do bom (que recai no sujeito em questão)
e do mau (que recai nos outros).

Assim, tal demonstração de bondade e solidariedade excessivas por tal indivíduo têm por finalidade
fazer retornar para si mesmo os sentimentos de poder e superioridade, na medida em que faz por anular e diminuir as potencialidades e a bondade dos outros, transformando-os em meros "usurpadores infiéis".
Note-se, entretanto, que tal proceder acaba por fazer o "outro" acostumar-se às suas dádivas constantes e gratuitas, implantando neles uma "mendicância" da qual tal sujeito passa posteriormente a reclamar,
mas mesmo assim continua a repetir incessantemente esse seu funcionamento vincular.

Deste modo, cria um "circuito vicioso" que acaba sendo sustentado pela suas "fantasias" de inferioridade, maldade e fragilidade internas e que, na tentativa de equacioná-las e neutralizá-las, leva-o a fazer uso de vias indiretas como a bondade exacerbada e a vitimização de si mesmo.
Quanto a solidão e a ingratidão advindas deste"modo de relação", isso acaba sendo o resultado daqueles que se posicionam frente ao outro como um "Deus Onipotente", se propondo a realizar seus desejos e as suas vontades indefinidamente e eternamente.

Terminam por distanciar-se das pessoas devido a sua encenação de força, superioridade e bondade sobrenaturais, levando o "outro" a crer, de fato, nessas suas potencialidades.
Ninguém acaba por saber realmente o que lhe vai por dentro, quando a bem da verdade, e na maioria das vezes, esconde um "ser" desesperado por ser amado e compreendido.



Nenhum comentário:

Postar um comentário